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Atas da
Conferência Internacional "Experiências e Expectativas do Ensino de Estatística -
Desafios para o Século XXI" |
Artigo selecionado e não apresentado
O Ensino de Estatística na Graduação: Ensaios para sua Reformulação
Ely Francina Tannuri de Oliveira
Maria Cláudia Cabrini Gracio
UNESP / Marília
Av. Higino Muzzi Filho, 737 CEP 17525-900
e-mail: tannuri@mii.zaz.com.br
ABSTRACT: This work aims at a reelaboration of Statistics classroom practices in courses in which it has an instrumental treatment. Problems like students lack of interest, difficulties in dealing with contents and in establishing links between knowledge of Statistics learned in contexts of instruction and knowledge of other fields have posed emergent questions in the teaching of this discipline. The teaching of Statistics has been undergoing a process of reformulation reflected in a project based on research and investigation practices, including collecting of data on issues raised by the students themselves.
Keywords: teaching of Statistics, Statistics in graduation, teaching by projects.
1.INTRODUÇÃO
O ensino de Estatística, foi pouco contemplado nas investigações acadêmicas. Mais especialmente neste final de século, começa a ganhar espaço e passa a ser objeto dos pesquisadores da área, questões que se relacionam à melhor adequação do ensino de Estatística Aplicada. A disciplina Estatística, quando tratada como ferramenta para o desenvolvimento das outras áreas do conhecimento, merece uma particular atenção por parte dos pesquisadores ligados à área, considerando que, em geral, ela é o único curso que os futuros usuários de Estatística irão realizar em sua formação à nível de graduação.
Problemas tais como, desinteresse dos alunos, dificuldades dos mesmos no trato com o conteúdo e na vinculação do conhecimento estatístico oferecido nas aulas com a realidade dos diferentes campos do conhecimento, tem se tornado questões emergentes de nossa docência. Muitas vezes, os alunos não conseguem visualizar como a metodologia estatística será aplicada na sua futura prática profissional e terminam o curso de graduação sem a instrumentação necessária para a utilização da Estatística na solução de problemas em sua área de atuação.
No entanto, profissionais de diferentes áreas, biológicas, exatas ou humanas, em geral, realizam experimentos, coletam e analisam dados em seu trabalho. Aqueles que assimilaram de forma satisfatória os conteúdos de Estatística trabalhados nos cursos de graduação, chegarão com mais prontidão e fundamentação às soluções das questões do seu cotidiano profissional.
A problemática acima exposta reflete questões que se relacionam com o delineamento dos cursos, isto é, seleção e organização de conteúdos, procedimentos de sala de aula e avaliação.
Assim, propusemo-nos à reformulação de nossa prática docente visando uma melhor adequação do ensino de Estatística aos interesses dos diferentes cursos, especialmente naqueles em que os alunos estão mais distantes de análises quantitativas, como é o caso dos cursos nos quais atuamos, quais sejam, Biblioteconomia, Pedagogia, Fonoaudiologia e Ciências Sociais. Considerando que a proposta para os cursos introdutórios de Estatística, em geral, é constituída por um modelo já pronto, cabendo ao professor apenas executá-lo, propusemo-nos a romper com este "pacote" reprodutivo e construir cursos que priorizem o instrumental estatístico mais pertinente a cada área do conhecimento. Pretendemos também, tornar os conteúdos da disciplina em questão melhor articulados às áreas de atuação dos diferentes cursos.
Apesar da carência de publicações de caráter teórico na área, alguns trabalhos apontam procedimentos que consideramos relevantes e que serviram como subsídios na elaboração desse trabalho.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Os autores Roiter & Petocz (1996, s/p) consideram "o delineamento de um curso em termos de seus propósitos, da estrutura organizacional e das histórias educacionais dos estudantes." Segundo ainda os autores citados,
... ter definido os objetivos que os estudantes vêem como relevantes e atingíveis é o aspecto mais importante do delineamento do curso. Além disso, o professor deve também considerar que tipos de habilidades e conhecimento ele imagina que seus estudantes terão como resultado de completar com sucesso este curso. (Roiter & Petocz, 1996, s/p)
Argumentam ainda, que o delineamento de um curso introdutório de Estatística não tem uma configuração linear, uma vez que a definição dos objetivos do curso se articulam com questões relativas a disponibilidade de recursos, política de ensino da instituição e também com aquelas que dizem respeito a história educacional de seus alunos e que poderão interferir no processo de aprendizagem.
Um primeiro momento no delineamento do curso é a identificação dos objetivos a que a disciplina se propõe, dos tipos de habilidades e conhecimento que se pretendem atingir, bem como da quantidade de tempo disponível para a disciplina.
A seleção e organização dos conteúdos deve contemplar a definição destes objetivos, como também se articular com a devida área de aplicação. Além disso, o autor Potter (1995, p. 260) destaca que,
... o objetivo mais importante de um curso de Estatística é encorajar os estudantes a serem praticantes deste instrumental. O conhecimento estatístico definitivamente nada significa se ele não se relaciona a questões e problemas reais.
Roiter & Petocz identificam quatro abordagens principais para cursos introdutórios de Estatística, resultado de um levantamento em cursos nas universidades australianas, a saber: Estatística como ramo da Matemática, Estatística como análise de dados, Estatística como delineamento experimental e Estatística como resolução de problemas.
A Estatística como ramo da Matemática apresenta como conteúdo típico: combinatórias, teoria da probabilidade e variáveis aleatórias, com atividades voltadas para demonstrações e derivações.
A Estatística como análise de dados apresenta conteúdos voltados para a análise exploratória de dados, testes de hipótese, regressão e correlação e atividades voltadas para a coleta, investigação e análise de dados e confirmação de hipótese.
A Estatística como delineamento experimental aborda conteúdos relativos à análise do efeito de variáveis sobre uma resposta, regressão e ANOVA e atividades voltadas para delineamento de experimentos, coleta de dados e interpretação de resultados.
A Estatística como resolução de problemas apresenta como conteúdo análise exploratória de dados, delineamento de experimento, ANOVA e atividades voltadas para a resolução de problemas nas áreas de atuação.
Os autores consideram que, embora o conteúdo incluído em cada abordagem seja típico, não significa necessariamente que eles sejam mutuamente exclusivos. Além disso, o que difere uma abordagem da outra é o conjunto de atividades nas quais cada uma está baseada.
Para identificar qual abordagem é mais adequada ao curso, os autores propõem um questionário que se presta a ser um ponto de partida para o docente "pensar e esboçar o curso", tanto em relação aos objetivos, como em relação aos conteúdos e procedimentos de avaliação.
Tratando da questão da avaliação é importante que ela focalize explicitamente os objetivos do curso, distinguindo a aprendizagem superficial e técnica daquela que exija maior compreensão dos conceitos.
Em artigo publicado a respeito de avaliação e ensino de Estatística, Hubbard (1997) focaliza a avaliação enquanto construção de questões que favoreçam a compreensão dos conteúdos em detrimento das que priorizem a memorização dos procedimentos. Para o autor a aprendizagem e a avaliação fazem parte de um mesmo processo. A avaliação deve determinar não só o quanto o aluno estuda, mas o quanto ele aprende. O autor critica o uso de questões padronizadas na avaliação. Enfatiza que, a partir de tal procedimento corre-se o risco de confundir respostas corretas memorizadas com as que surgem do entendimento dos procedimentos da teoria Estatística levando, algumas vezes, ao pseudo êxito do curso devido ao aparente sucesso na avaliação.
A este respeito Steinhorst & Keeler, apud Hubbard (l997 s/p) argumentam que:
"Com a prática nós podemos encontrar exercícios que consigam com que os estudantes entendam os conceitos estatísticos em vez de saber como calculá-los. Uma boa questão conceitual será obter questões que façam os estudantes pensarem em várias possibilidades de respostas, isto é, o estudante deve pensar em vez de só calcular".
Os autores observam ainda que as questões devem provocar a investigação da compreensão dos conceitos e não sejam réplicas de outras já elaboradas em aula ou avaliações anteriores pelo professor. Muitas vezes estas réplicas passam a fazer parte da aprendizagem produzida por seqüência de respostas de rotina. Em conseqüência disso, "os estudantes rapidamente se esquecem dos procedimentos que eles aprenderam mas não entenderam" (Hubbard, l997, s/p).
3. DESENVOLVIMENTO
Para a operacionalização das propostas descritas, procedeu-se à construção de um projeto a ser executado nos cursos onde atuamos como docentes da disciplina Estatística. Retomou-se, em um primeiro momento, os objetivos de cada curso no qual a Estatística é ferramenta de apoio, iniciando-se assim os primeiros ensaios para o delineamento de cada um deles, com suas peculiaridades, suas escalas próprias de mensuração, seus objetivos mais específicos, conteúdos e avaliação.
Considerando que a Estatística constitui-se em um conjunto de métodos e técnicas de pesquisa, esta reformulação de seu ensino baseia-se na prática da investigação e da pesquisa, a partir do levantamento de dados relativos a questões construídas e de interesse dos próprios alunos. Recorre-se assim, à prática da investigação e da pesquisa quantitativa como procedimento de trabalho.
Este projeto, além de promover a vinculação do conteúdo estatístico com a área de atuação do aluno, possibilita também a articulação dos diferentes conceitos estatísticos entre si.
A este respeito Thompson (l994, p. 41), em trabalho realizado, destaca a importância do uso de dados reais no ensino da disciplina Estatística, afirmando que "deve-se diminuir o uso de dados artificiais, que se tornam desinteressantes". Além disso, " os estudantes aprendem imediatamente que a análise de dados é uma parte integrante dos processos de pesquisa e não uma série de dados isolados". Observa ainda Thompson (1994, p. 41):
Para obter plenos benefícios de dados reais, os estudantes devem ser pesquisadores, (não os objetos de estudo) e eles devem coletar dados por si próprios ou participar no delineamento do instrumento de coleta de dados.
Solicita-se dos alunos, a princípio, um levantamento de questões, em geral, de interesse da própria área e passíveis de serem tratadas quantitativamente. Com base nestas questões, os alunos elaboram um mini-projeto de forma que os procedimentos e os objetivos fiquem bem claros e definidos. Procede-se, então, à construção de um instrumento para a coleta de dados, organização dos dados, elaboração de tabelas e gráficos, cálculo dos principais parâmetros estatísticos pertinentes àquele tipo de variável em estudo, bem como análise e interpretação dos resultados.
Observe-se que, sistematicamente, nas diferentes etapas do desenvolvimento do mini-projeto há uma interação entre docente e alunos para orientação e avaliação das etapas já realizadas. Além disso, durante as aulas, procura-se vincular o conhecimento novo com aquele que está sendo trabalhado com os dados coletados pelo aluno.
Considerando que estes mini-projetos são desenvolvidos paralelamente e articulados com os conteúdos programáticos, eles constituem a principal forma de avaliação da aprendizagem dos alunos.
4. CONCLUSÃO
Como resultados parciais desta nova prática docente, concluiu-se que todo ensino de Estatística, quando tratada como disciplina instrumental requer estudo e entendimento prévio do campo de trabalho onde será aplicada. Além disso, sempre que os procedimentos e técnicas estatísticas são associados à prática da investigação e da pesquisa eles se apresentam com maior significado para o aluno.
Sabemos que ensinar Estatística para cursos cujo componente curricular é, essencialmente, instrumental constitui-se um desafio e requer grande esforço, tanto do docente responsável como dos alunos. Esse processo, porém, pode ser menos penoso e mais produtivo, com procedimentos que apontem para a devida articulação do curso com os objetivos maiores da área de formação profissional, para a compreensão e envolvimento dos estudantes com o conteúdo e que faça da avaliação mais uma recurso para a aprendizagem.
5
. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASDEMO, P. Desafios modernos da educação. Vozes, Petrópolis, RJ,l993.
HUBBARD, R. Assesment and the process of learning Statistics. Journal of Statistics Education, v. 5 , n. 1, l997.
POTTER, A . M. Statistics for Sociologists: Teaching Techniques that Work. Teaching Sociology, v. , 23, july, 1995.
ROITER, K., PETOCZ, P. Introductory statistics courses-A new way of thinking. Journal of Statistics Education., v. 4, n. 2, l996.
THOMPSON, W.B. Making data analysis realistic: incorporating research into Statistics courses . Teaching of Psychology, v. 21, n.1, l994.