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Atas da Conferência Internacional "Experiências e Expectativas do Ensino de Estatística - Desafios para o Século XXI"

Florianópolis, Santa Catarina, Brasil - 20 a 23 de Setembro de 1999

Contribuição ao debate sobre a formação permanente em Estatística

José Francisco Soares (UFMG)

Setembro de 1999

Primeiramente gostaria de agradecer ao Prof Pedro do Nascimento Silva pelo amável convite para participar desta mesa, ao programa PRESTA pelo grande serviço que está prestando a Estatística Brasileira através de suas promoções, centradas nas ciências humanas e em aplicações da Estatística e ao Prof. Pedro Barbetta e seus colegas de comissão organizadora por gastarem tempo precioso de sua atividade acadêmica em tão relevante serviço à comunidade estatística brasileira.

A Estatística é ensinada para um grupo grande e diverso de audiências. Alunos do ensino fundamental e médio, estudantes de várias carreiras universitárias, alunos dos cursos de graduação e pós-graduação em Estatística que se tornarão Estatísticos Profissionais, cientistas iniciantes e finalmente, o objeto de nossa mesa, profissionais de várias áreas em busca de um conhecimento que se tornou útil para o seu exercício profissional. Embora a forma de ensinar Estatística para todas estas diferentes audiências, tenha uma matriz comum, vou me ater ao último público, resistindo a tentação de fazer comentários genéricos sobre as outras modalidades de ensino ou sobre as diferentes formas de ser Estatístico

Além de minha formação qualifica-me participar desta mesa a minha experiência no Departamento de Estatística da UFMG. Ali participei, ao longo dos anos, de várias iniciativas de ensino de estatística, que poderiam se enquadrar no que é usualmente caracterizado como Educação Continuada. Promovemos um grande número de cursos de extensão para diferentes empresas de nossa região, experiência que precedeu e continuou até a criação do Programa de Qualidade da Fundação Cristiano Ottoni. Muitos de nossos colegas acabaram se integrando naquele esforço bem sucedido. Hoje esta iniciativa está organizada em torno de uma empresa privada de consultoria de grande sucesso. Na área médica, o grupo de bioestatística já ofereceu vários cursos de treinamento em congressos e organizados para atender demandas específicas de grupos clínicos. Mais recentemente, refletindo o novo momento das ciências sociais no Brasil, vários professores de nosso Departamento participaram de curso de técnicas estatísticas para o cientista social, iniciativa apoiada pela Fundação Ford e organizada na UFMG pelo Departamento de Sociologia.

Vou sintetizar minha posição em duas teses. A primeira é que a educação continuada em Estatística deve se estruturar em torno de problemas dos alunos- clientes.

São quatro as bases necessárias para o sucesso profissional do Estatístico. A matemática, a computação, capacidade de formulação de problemas e conhecimentos de métodos e técnicas da Estatística. Para sucesso em projetos de educação continuada o terceiro componente acima é essencial e dominante.

A procura por educação continuada em Estatística, nasce da necessidade de solução de problemas muito concretos: o médico quer entender o artigo que usa curvas de sobrevivência, o engenheiro quer entender os métodos moderno de melhoria de processos, o sociólogo quer entender como as escalas usadas foram construídas. Nestas circunstâncias o problema é mais importante que a técnica. Na realidade a técnica só se legitima porque ajuda a resolver os problemas identificados.

O cientista social, na maioria das vezes, trabalha com dados observacionais, aqueles que não são fruto de um experimento. Freqüentemente seu problema básico é portanto calcular o efeito de uma dada variável, para possível recomendação futura de política. Para isto deve evitar a confusão desse efeito com o de outras variáveis. Ele precisa da técnica de regressão para obter o efeito puro de uma variável e não para fazer previsão. Colocar ênfase no ensino do coeficiente de determinação é mostrar que não se fez corretamente a identificação do problema do cliente.

É preciso pois saber formular o problema do cliente e identificar, usando a linguagem do problema, a necessidade de conteúdo estatístico a ser ensinado. Esta tarefa é difícil e cheia de surpresas. Uma boa identificação de problemas nos leva com freqüência a técnicas simples e a técnicas especificas.

O Prof. Ishikawa, autor de um dos livros mais vendidos no mundo de Estatística, costumava dizer que a maioria dos problemas requer o uso de técnicas simples, triviais mesmo. Renomeou algumas técnicas estatísticas conhecidas como as 7 ferramentas da qualidade que logo tornaram-se linguagem corrente na indústria. Um grande sucesso e um excelente serviço prestado. Entretanto, é necessário grande maturidade para identificar o problema de forma correta e produzir solução com as técnicas de um curso introdutório de Estatística.

Ao se preparar um curso de Estatística para uma atividade de formação continuada é preciso prestar atenção a alguns detalhes. Começando pelo nome. Não se promove um curso de Estatística para médicos mas "Avaliação Critica da Evidência Clínica" Isto mostra sensibilidade e domínio da linguagem da área. Tenho tido muito receptividade falando de Qualidade de Testes Diagnósticos, para ensinar noções de probabilidade, Medida o Efeito de uma Intervenção, para falar de parâmetros, intervalos de confiança e de Identificação de Fatores de Risco no ensino de diferentes tipos de regressão.

A forma de apresentação deve estar de acordo com a audiência. As transparências de difícil leitura, com muito material não são adequadas. O uso do computador deve ser planejado, devem-se evitar surpresas aqui. Os exemplos devem ser sempre relevantes, sem ser exaustivos. Se necessário deve-se aproximar mas nunca trivializar o conteúdo.

Estes cursos não podem pretender habilitar o cliente a refazer todas as análises. Devem ser curtos. Outro objetivo esbarrará na base superficial em matemática e estatística dos alunos. Embora possa se dotar o cientista social de um claro entendimento da técnica de regressão, seus usuários sérios devem ter domínio dos conceitos de projeção, o que não é possível de ser ensinado em algumas poucas horas.

 

Minha Segunda tese é que os estatísticos brasileiros não estão preparados para o ensino de estatística na forma de educação continuada.

Não falo de pessoas específicas, nem de grupos em universidades. Falo do nosso coletivo. Primeiramente, falta empreendedorismo, a capacidade de promover atividades fora daquelas consagradas pelas universidades. Mas, mais seriamente, falta uma real capacidade de entendimento e formulação dos problemas dos clientes. Isto falta por não ser ensinado.

Diante disto não é surpresa que o mercado de curso e atividades de formação continuada seja ocupado por todo tipo de profissional que, dominando melhor a formulação dos problemas, apresenta-se como conhecedor da Estatística.

A formação dos estatísticos brasileiros está confinada a uma única escola. Os Departamentos de Estatística mais sólidos são fruto de departamentos de matemática. Talvez por isto estão centrados no mesmo tipo de produção daquela ciência. No entanto, a educação continuada em estatística precisa de "engenharia de dados", atividade difícil de florescer nestes departamentos. Não defendo ou sugiro que estes departamentos devam mudar, mas que o País precisa de estatísticos formados por outras matrizes filosóficas. Neste sentido a experiência da ENCE é muito relevante.