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Atas da
Conferência Internacional "Experiências e Expectativas do Ensino de Estatística -
Desafios para o Século XXI" |
MESA REDONDA
La Enseñanza de la Estadística en la Escuela
César, M.
Centro de Investigação em Educação da Faculdade de Ciências
da Universidade de Lisboa, Lisboa - Portugal
Tema proposto: Investigações sobre Ensino e Aprendizagem. O papel da Interacção Social na Aprendizagem.
Teorias de aprendizagem especialmente adequadas ao ensino da estatística e implicações sobre a metodologia do ensino; algumas dificuldades previsíveis.
Como gostaria que estivesse escrito: Investigações sobre o Ensino e a Aprendizagem. O papel das Interacções Sociais na Apreensão de Conhecimentos e Aquisição de Competências (Matemáticas). Implicações metodológicas e alterações do contrato didáctico. Vantagens e dificuldades inerentes a esta forma de trabalho.
Resumo:
A introdução do estudo da Estatística no Ensino Básico e Secundário veio a par de reformas curriculares que apontavam para a necessidade de utilizar novas metodologias na sala de aula, recorrendo a mais problemas e actividades de investigação, em detrimento dos exercícios, que treinavam fundamentalmente destrezas mecânicas, como o cálculo e a aplicação de fórmulas. Este tipo de sugestões corresponde a uma preocupação patente nos actuais currículos: que se considere, de forma interligada, o desenvolvimento de valores e atitudes, de capacidades e aptidões e a apreensão de conhecimentos. Deste modo, ao contrário do que se verificou durante longos anos, a ênfase deixou de ser posta apenas nos conteúdos, para se ter em conta o desenvolvimento global do sujeito. A Escola deixou de ser encarada como um lugar onde se aprende e passou a ser vista como um lugar onde se educa, onde se preparam cidadãos activos e críticos, que desenvolvem a sua socialização. Deixou de se falar em aprendizagem e passou a falar-se de numeracia e de literacia, ou seja, na possibilidade de formar sujeitos que saibam utilizar as suas capacidades, valores e conhecimentos para serem cidadãos de pleno direito, socialmente participativos e integrados.
Conceber a Escola desta maneira levou a estudar, de forma cada vez mais detalhada, as intercações sociais que nela se estabelecem. Não só as interacções professor/ aluno, mas também as interacções entre pares, uma vez que se provou, através de diversos estudos empíricos, que as interacções entre pares eram facilitadoras de progressos socio-cognitivos, de melhores desempenhos e de um maior sucesso académico. Para além disso, as metodologias que levam ao desenvolvimento da capacidade crítica, da criatividade, de ser capaz de formular conjecturas, de as testar e de conceber argumentações que as sustentem, estão directamente ligadas às interacções sociais, uma vez que fomentam o trabalho em díades ou em pequenos grupos.
Fomentar interacções ricas e frutuosas implica modificar o contrato didáctico tradicional, onde é o professor que ensina e o aluno que aprende; onde o professor põe questões a que o aluno responde. Para atingir os objectivos patentes nos actuais currículos é necessário que os alunos tenham um papel activo na apreensaõ dos conhecimentos, que eles estabeleçam interacções horizontais e não apenas verticais, de modo a desenvolverem uma auto-estima positiva, atitudes mais favoráveis face à matemática, que promovam o seu desenvolvimento socio-cognitivo e o seu sucesso escolar.
A Estatística está presente em muitos aspectos da nossa vida quotidiana. Nos media ela aparece frequentemente; nas outras ciências ela é utilizada; na vida escolar dos alunos ela também se encontra, por exemplo quando eles querem saber a média que têm. Assim, a Estatística, quando associada à promoção das interacções sociais na sala de aula, pode ser um elemnto extremamente importante para motivar os alunos, para os levar a envolverem-se em projectos interdisciplinares e para desenvolver a sua socialização, a par com as suas capacidades cognitivas e com a aquisição de conhecimentos que lhe virão a ser úteis numa sociedade cada vez amis complexa e em mudança, onde a literacia já não se pode limitar a saber ler, escrever e contar.
Porém, implementar interacções sociais na sala de aula implica ter professores com uma sólida preparação psico-pedagógica e científica, ser capaz de interagir com os encarregados de educação para lhes explicar o trabalho que se está a fazer com os alunos, negociar com os diversos parceiros institucionais, conceber tarefas inovadoras e apropriadas para este tipo de trabalho, ter critérios cada vez mais finos para a formação das díades e dos grupos. Assim, há dificuldades inerentes a esta forma de trabalho, que não são as tradicionalmente apontadas pelos professores. É preciso saber gerir as interacções, criar conflitos socio-cognitivos, mas evitar os conflitos afectivos, saber promover as capacidades e ritmos de cada um, ao mesmo tempo que se cumpre o currículo, quanto aos seus conteúdos.
As interacções sociais têm demonstrado ser uma das soluções eficazes para combater a rejeição e insucesso escolar que se verifica em relação à matemática. Mas implementá-las de forma eficaz é também um enorme desafio para os professores, uma vez que o seu papel, aparentemente mais simples, se torna de facto muito mais complexo, ganhando contornos que não existiam no ensino tradicional e expositivo. O professor tem de saber fomentar o trabalho emgrupo, mas também tem de saber gerir as discussões finais; as tarefas têm de ser mais inovadoras; a avaliação precisa de ser reformulada; o professor tem de ser capaz de aceitar que não consegue prever tudo, nem saber tudo, embora tenha mais capacidade para procurar respostas, interrrelacionar saberes e argumentar que os seus alunos.
As capacidades que se desenvolvem com o estabelecimento de interacções sociais ricas são diferentes das que se desenvolvem no ensino tradicional. Aqui, há toda a socialização que é facilitada (a solidaridade, o respeito pelos outros, a aceitação da diversidade), o aluno descobre em si próprio capacidades que julgava não possuir e aprende a utilizá-las em diversas situações. É precisamente este ganho ao nível das capacidades que se desenvolvem que torna as interacções sociais um instrumento tão poderoso na sala de aula e no estudo da Estatística.